Maputo, 3 de Agosto de 2026 — O preço dos livros, a insuficiência de bibliotecas e as dificuldades de acesso às obras estão entre os principais factores que condicionam os hábitos de leitura dos estudantes do ensino superior em Moçambique. Esta é uma das conclusões da pesquisa “Hábitos de leitura e consumo de livros entre estudantes em Moçambique: práticas, motivações e barreiras à leitura”, realizada pela CATALOGUS.

O estudo envolveu 63 estudantes de mais de quinze instituições de ensino superior, provenientes de sete províncias e cidades do país: Maputo Cidade e Província, Sofala, Tete, Inhambane, Nampula e Zambézia. Os dados foram recolhidos através de um questionário online, aplicado entre os dias 1 e 28 de Abril de 2026.

De acordo com os resultados, 55,6% dos participantes afirmam ler diariamente e 28,6% semanalmente. No entanto, 96,8% reconhecem que gostariam de ler mais do que lêem actualmente, enquanto 95,2% consideram que, de modo geral, os estudantes moçambicanos lêem pouco. Quase todos os participantes, 98,4%, consideram que a leitura contribui significativamente para a melhoria do desempenho académico.


A leitura literária, que inclui romance, poesia e outros géneros, é a mais praticada, mencionada por 58,7% dos inquiridos. Quanto aos formatos, 41,3% alternam entre livros físicos e digitais, 31,7% preferem obras em PDF ou noutros suportes digitais e 27% optam pelo livro físico.

A pesquisa mostra ainda que o acesso gratuito a livros em formato PDF constitui a principal forma de obtenção de obras, referida por 28 dos 63 participantes. Apesar das limitações económicas, 65,1% afirmam ter comprado pelo menos um livro durante os últimos 12 meses, embora a maioria tenha adquirido apenas um ou dois exemplares.

Entre as principais barreiras à leitura, 36,5% apontam a falta de tempo, 28,6% a falta de acesso aos livros e 25,4% a falta de dinheiro. Considerados em conjunto, os factores económicos e de acesso representam 54% das respostas, confirmando que as condições materiais têm um peso decisivo nos hábitos de leitura.

Quando questionados sobre as iniciativas que poderiam levá-los a ler mais, 50,8% dos estudantes indicaram a redução do preço dos livros. Seguem-se a criação de clubes de leitura, com 17,5%; a realização de eventos literários, com 15,9%; e a disponibilização de acesso digital gratuito, com 9,5%.

Outro resultado relevante diz respeito ao ambiente familiar: 65,1% dos estudantes afirmam que os seus pais ou encarregados de educação não têm o hábito de ler. O dado sugere que muitos jovens constroem a sua relação com os livros de forma autónoma ou ao longo do percurso escolar e universitário, reforçando a importância das instituições de ensino na formação de leitores.

As respostas abertas recolhidas durante a pesquisa apontam para cinco áreas prioritárias de intervenção: redução do preço dos livros, ampliação das bibliotecas e dos seus acervos, promoção da leitura desde a infância, criação de políticas públicas consistentes e reforço da mediação da leitura por professores, bibliotecários, escritores e outros agentes culturais.

Perante os resultados, o estudo recomenda o estabelecimento de parcerias entre universidades, editoras e livrarias para facilitar a aquisição de livros a preços reduzidos; o reforço das bibliotecas públicas e universitárias; a criação de clubes de leitura e eventos literários nos espaços académicos; e o investimento em programas de leitura desde o ensino primário e secundário.

A pesquisa apresenta resultados preliminares por se basear numa amostra de conveniência, composta por 63 participantes e geograficamente concentrada em Maputo e Matola, os dados devem ser entendidos como indicadores de tendências, não podendo ainda ser generalizados a toda a população estudantil moçambicana. A CATALOGUS pretende dar continuidade ao estudo, alargando a participação a outras instituições e regiões do país.