Por MELO MUNGUAMBE

A madrugada mergulhava Maputo numa respiração lenta, como se a cidade se preparasse para revelar um segredo. Na pequena casa da Mafalala, Afonso Maquene escrevia. Ou tentava escrever. As palavras escapavam-lhe como fumo entre os dedos, e o silêncio que o rodeava era tão profundo que parecia observar cada gesto seu.

Diziam que ele vivia num estado de solidão tão denso que se tornara parte do seu processo criativo. Uma solidão herdada dos grandes escritores do mundo, aqueles que se isolavam até que a mente gerasse mundos invisíveis. Maquene acreditava nisso. Talvez demasiado.

Às vezes, jurava que a sua casa respirava. As paredes, manchadas de histórias antigas, vibravam quando ele apagava frases inteiras. As janelas tremiam, quase rindo, quando ele hesitava diante de uma página em branco. E, naquela noite abafada, quando o calor parecia suspender o ar, algo inesperado aconteceu.

— Ainda acordado, Afonso?

Ele ergueu o rosto, o coração tropeçando no peito. Não havia ninguém no quarto. A voz vinha de fora, mas não era humana. Era profunda, quente, arrastando consigo o cheiro salgado da Costa do Sol, o som distante dos chapas e a melodia nostálgica do jazz perdido na Baixa.

— Quem és tu?

Murmurou, sem saber se se dirigia a um fantasma, à cidade ou à própria solidão.

— Sou Maputo. A cidade que te lê em silêncio.

O chão pareceu expandir-se, e a rua transformou-se num corredor de luz dourada. Maquene sentiu-se puxado para dentro daquele brilho vivo, que palpitava como se tivesse um coração próprio. Entrou sem pensar no regresso.

De repente, o mundo mudou. Já não era Maputo. Era Nampula. Não a Nampula visível aos olhos comuns, mas a Nampula que existe entre as pedras, por baixo das sombras, no sopro da terra. O Monte Nairuko respirava, erguendo e baixando o peito como um gigante adormecido. Da cacimba azulada saíam rostos: rostos de mulheres que venderam no mercado de Waresta metade da vida, de jovens que se perderam na história, de velhos que carregavam segredos que nunca foram escritos.

— Chegaste — disse uma voz profunda, como se o chão falasse.

Maquene aproximou-se, sentindo o ar pesado de memórias.

— Eu quero escrever algo grande.

Confessou.

— Algo que mude a literatura. Algo que acorde o meu país.

A cacimba tremulou, formando a figura de um rapaz franzino, com um caderno velho nas mãos. Maquene reconheceu-o com um susto: era ele próprio, aos doze anos, sentado no quintal da avó, escrevendo à luz fraca da torcida de candeeiro. O menino encarou-o com olhos acusadores.

— Esqueceste por que começaste a escrever.

Maquene deu um passo atrás. O Monte Nairuko vibrou, como se sentisse a tensão.

— Eu não esqueci.

Disse, num fio de voz.

— Esqueceste, sim. Tinhas prometido escrever para salvar vidas, para revelar verdades, para erguer aquilo que a história esconde. E depois tiveste medo. Medo de ser polémico. Medo de incomodar. Medo de ser grande demais.

A figura infantil dissolveu-se, transformando-se numa mulher idosa envolta em capulanas vivas, que pareciam respirar. Os olhos dela eram tão profundos que Maquene sentiu que estava a ser lido por completo.

— Eu sou Natikiri.

Disse a mulher.

— Sou o rosto das histórias que nunca tiveste coragem de escrever. Caminha comigo.

Ele caminhou. Natikiri mostrou-lhe Maputo e Nampula entrelaçadas numa teia invisível: jovens escritores discutindo poesia nas esquinas, crianças aprendendo a ler com livros que ainda não existem, mercados cantando memórias que se perdem todos os dias, mulheres e homens carregando histórias que ninguém regista. Mostrou-lhe também futuros possíveis — alguns luminosos, outros sombrios —, todos dependentes das palavras que ele ainda não escrevera.

— A tua solidão sempre te falou.

Disse Natikiri.

— Mas tu raramente a escutaste por completo.

O chão transformou-se em páginas. O céu tornou-se tinta. E as pessoas que passavam eram metáforas vivas, palavras ambulantes, fragmentos de um livro que já existia, mas ainda não fora escrito.

Maquene caiu de joelhos, sufocado de emoção e medo.

— Não sei se consigo.

Confessou.

— Não sei se aguento escrever tudo o que vejo.

— Consegues.

Murmurou a cidade que o envolvia.

— Mas só se escreveres a verdade, mesmo que doa. Mesmo que gere polémica. Mesmo que revolucione. Mesmo que te quebre.

Quando abriu os olhos, estava de volta à sua mesa na Mafalala. O calor, o silêncio, a caneta suspensa no ar. Tudo parecia igual. Mas ele não era o mesmo. Começou a escrever. Sem respirar fundo, sem hesitar, sem pedir licença ao medo. As paredes ficaram quietas, como se respeitassem o que estava a nascer.

Escreveu Maputo que fala. Nampula que guarda. A criança que o acusou. A velha que o guiou. As memórias que nunca se escrevem. As verdades que ninguém ousa tocar. A solidão que se tornou porta, e não prisão.

Quando terminou, o sol nascia. A luz invadiu o quarto como uma bênção. E, pela primeira vez, Afonso Maquene percebeu que não estava sozinho. Nunca estivera.