O poeta e curador moçambicano Amosse Mucavele foi um dos quatro autores selecionados para participar da segunda edição do Programa de Apoio a Residências Literárias promovido pelo Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP). Durante um mês, o autor irá residir em São Tomé e Príncipe, onde desenvolverá o projecto literário “A Semântica da Dor”, uma investigação ficcional sobre os desterros forçados de moçambicanos para o arquipélago na década de 1960.
Selecionado entre mais de vinte candidaturas válidas, o projecto de Mucavele destacou-se pela sua proposta original e pela relevância cultural ao abordar um capítulo silenciado da história comum entre Moçambique e São Tomé e Príncipe. Através de pesquisa de campo, arquivos e encontros com testemunhas ou descendentes, o autor pretende criar uma obra de ficção que reflita sobre temas como o exílio, o trauma colectivo, o apagamento histórico, a estrutura familiar e a ausência como força narrativa e memória viva.
“Esta residência representa para mim mais do que um tempo de escrita. É uma viagem ao interior da história, uma oportunidade de contactar directamente com os espaços, os arquivos vivos e os protagonistas invisíveis deste capítulo trágico da nossa história”, afirma Mucavele.
O projecto marca também a estreia do autor no gênero do romance, após ter se destacado na poesia com obras como Pedagogia da Ausência. A residência literária será um espaço de imersão criativa, permitindo o contacto com comunidades locais, instituições culturais e ambientes que servirão de inspiração e matéria narrativa para o livro em construção.
O programa do IILP tem como objetivo incentivar a mobilidade de escritores dos países de língua portuguesa, promover o intercâmbio cultural e ampliar o diálogo entre as diferentes literaturas da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). A iniciativa valoriza não apenas a produção literária contemporânea, mas também os vínculos históricos e afetivos entre as nações que compartilham o português como idioma oficial.
Além de Amosse Mucavele, foram contemplados nesta edição:
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José J. Cabral, de Cabo Verde, que fará residência em Portugal;
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Nunes Sitoe, também de Moçambique, com destino a Cabo Verde;
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Joana Bértholo, de Portugal, que também residirá em Cabo Verde.
A residência tem duração de um mês e proporcionará aos autores um ambiente propício à escrita, à pesquisa e à troca com agentes culturais locais, consolidando pontes entre geografias, memórias e linguagens dentro do universo lusófono.




