
Há uma fórmula com que Eurípedes encerra várias das suas peças, como a Alceste, a Medeia, a Andrómaca, a Helena ou As Bacantes, e que consiste nisto:
«Muitas são as formas do divino, e muitas coisas os deuses cumprem contra toda a esperança. O que se esperava não se realizou, e para o inesperado um deus encontrou caminho.»
O inesperado é o inaudito que tomou lugar ao sol. Bom, e o que talvez seja menos evidente é a razão do inesperado estar associado ao elemento fogo, desde já ao relâmpago, essa chispa de luz que acende um candelabro no tecido do dia, considerado como um primeiro halo do ÍGNEO.
Lembremos que o fogo, como defendia Heraclito, é o que transforma tudo continuamente, e faz com que aquilo que parecia estável se revele inesperadamente provisório. Deste modo, o inesperado espelha a própria estrutura do real, aquilo que não se deixa fixar, sendo o fogo o seu instrumento mais temível. Embora seja poliédrica a face do fogo e lhe caiba igualmente a ambivalência de comportar uma dimensão protectora: não por acaso roubou Prometeu o fogo aos deuses, permitindo aos homens libertarem-se do frio e cozerem os elementos.
Daí que, desde sempre, tentar desvendar o núcleo do fogo seja um sortilégio ou um desígnio que alguma poesia persegue, a poesia que se quer a um tempo ambiciosa e digna para com os pergaminhos duma linhagem oracular e órfica que há séculos e séculos procura sondar o mistério do fogo ou contrapor-lhe o poder transformador da música.
Repare-se nos nomes de poetas para quem a imagem do fogo foi um dínamo poético:
Rimbaud, T. S. Eliot, Paul Celan, Octavio Paz, Federico García Lorca, para quem o fogo se liga à paixão e à morte; Yeats, para quem o fogo ilustra a imaginação e a purificação («Byzantium»); William Blake: e o fogo como energia criadora nos Provérbios do Inferno; Rilke, que vê o fogo como transformação interior, para além de Herberto Helder, um homem de coração ígneo. Esta linhagem é como uma girândola de fogo preso e é preciso coragem para lá pôr a mão.
A primeira qualidade de Otildo Justino Guido, um nome que parece saído do quinto círculo do Inferno de Dante, é que se atreve a traçar um percurso por este caminho incandescente sem se queimar, chamuscando-se aqui e ali, mas no essencial ficando incólume.
Este é já para começar a primeira proeza deste livro conceptual, de oitenta páginas com um tema unitário, e que, a avaliar pela sua estrutura e os nomes dados a cada um dos seus capítulos, desde FISIOLOGIA CÍCLICA DO INCÊNDIO, o primeiro, até CENTRO IMÓVEL DO INCÊNDIO, o último, se pretende erguer como uma espécie de carta topográfica para o fogo e um desvendamento das suas máscaras, enquanto busca sondar um ponto de fuga para o humano, ou pelo menos o clamor de uma espiritualidade que o dignifique e exalte para além da dor, da tristeza, do que é visível, e que por fim conceda um derradeiro carácter moral ao homem, fasendo-o resistir ao cancro dos cínicos que começa a viralizar quando os homens desejam as catástrofes, fascinados pelo esplendor das ruínas.
O livro começa com o seguinte poema, de que leio os versos que nele pulsam e se enfeixam num músculo único:
«procuro um fogo no fogo – cavo essa coisa ardente –
para que entre dentro da cabeça como uma miragem –
procuro um em específico: o tímido, o terrível
capaz de se jogar à água e continuar a flutuar
– procuro com a atenção de uma linha a entrar no orifício da agulha
apalpo as fibras – os nervos – tenho o arco-íris
enrolado entre os dedos – peneiro todos os astros para saber
como o sol concebe a lua e como uma estrela perde
o fulgor diante de outras pedras – ateio-me
nos ramos dessa flor – e escolho o pássaro sobreposto –
sigo-o como uma borboleta entre árvores.»
e vimos que em onze versos se convocaram os quatro elementos e acima o cosmos com os astros, os mesmos que depois são atados à pedra, à flor, ao pássaro, e como o poder irradiante, ardente, que começou na abstração do fogo ganha o fulgor e a concretude, ainda que evanescente, de uma borboleta.
Como se o infinito viesse até nós, descido do empíreo, atraído pelo mínimo mas cintilante cortejo da beleza, que o salva da apatia do eterno.
Seguem-se oitenta páginas de uma poesia oracular, imagética, de ampla vocação aforística, cheia de sinais e marcas contraditórias, mas que nunca desapega do corpo, como se diz nuns dos mais belos versos do livro: “como uma bússola/ a carne é um rio/ que sonega os barcos”.
E no último canto deste livro edifica-se uma poética, que se pretende transfiguradora em relação aquilo que é:
«é preciso exigir um pouco mais do que se mostra na fotografia,
acredito existirem elementos além do silêncio visual:
a arte é a casa dos grandes medos.
e falamos de luzes em tempos de guerra.
abrimos cada vez mais as memórias: cada ferida tem um
aroma indelével. nenhuma bala foi feita para amar.»
Repare-se: nenhuma bala foi feita para amar, mas as derradeiras palavras deste canto, que encerra o livro, guinam num galope de esperança. Ora leia-se:
«está-se sempre dentro de alguém, por isso a necessidade
de abrandar as velas, falar baixo quando a luz abrir a porta.
às vezes é necessário quebrar uma estrela para colher o seu deslustre.
quebrar um coração para obter o poema.
e quebrar uma coisa é incendiá-la.
faísco, por isso, à medida do meu escuro interior.
mas não basta, em um século que tudo está a fio, é preciso,
mais que escrever, escavar-se, quem sabe, encontre-se
o estômago que todo fogo procura para se albergar em
tempos de chuva.»
Está-se sempre dentro de alguém, como o filho no útero da mãe, ou o amado sob a abóbada do amante.
E mesmo o fogo procura afinal a ressonância, refúgio onde se albergar em tempos de chuva, e quando o fogo já quer estar em companhia e procura, mais que destruir, sinais de empatia, é um augúrio de que o mundo está prestes a recomeçar e nós com ele. Aí basta-nos escavarmos com ele. Se calhar até acharmos na fria cinza do fundo o afago dos mortos, o reavivar da chama.
É um belo livro aquele que aqui damos testemunho, um dos melhores que li nos últimos anos de um poeta moçambicano, talvez desde Mbate Pedro e Álvaro Taruma que não descortinava uma expressão tão segura e com um tão nítido apelo visionário.
Todo o sangue arde, é o terceiro livro de Otildo e denota talento, disciplina e ambição. Já os anteriores foram merecedores de dois prémios, o Silêncio da Pele, venceu o Prémio Literário Fernando Leite Couto, em Moçambique. E em 2020, venceu o Prémio de Poesia Judith Teixeira, com O Osso da Água, em Portugal. E este terceiro volume impressiona pelo apuro expressivo e a crescente maturidade, o que torna mais urgente que no próximo, Otildo dispense de uma vez os ecos herbertianos que aqui e ali afloram neste livro quando sobretudo a sua voz já não precisa dessa muleta e o seu caminho está encontrado, pois como ele bem sabe “um poema lapida os objectos até terem a medida certa”.
Eu que vivi vinte anos em Moçambique até 2025, ainda não tinha encontrado este poeta e agora não imagino o futuro sem esperar pelos próximos livros deste poeta de Inhambane.
o verso capaz de segurar uma fogueira – forjar
um deus – ter o golpe certo para endireitar
a cauda do diabo – um verso apenas – um código
que abra todas as portas da luz e conheça
os animais que rodeiam a lâmpada acesa – a estrela
que arrasta os barcos para dentro do incêndio –
as ninfas marinhas, o sal, a ferrugem da água
no ofício de minerar pedras no sangue – um verso
puro como a matéria
antes do nome e da forma – e tenha a sede
de transformar a ferida em bússola
no interior da carne – que sobreviva à memória
das bombas – à vertigem hereditária –
um verso a raiar violentamente sobre o mundo.
concebeste, antes da nódoa, o espasmo do abismo
o teu grito
é o aroma que destila o medo
hoje se vou fundo à ferida e procuro
entre os dois lábios dessa luz, o soluço da ironia
é graças a ti, ó inconcebível
foste o inelegível, o algar da metafísica
a faca que conhece a fundura do ofício da morte
trouxeste o assombro, não apenas
a febre do fogo
mas a coceira que faz a noite escurecer.
preciso do abismo a fluir em minhas mãos,
a facada de um relâmpago na cabeça
um terramoto a rasgar os lábios
preciso dos pássaros, das carnes e dos abutres
preciso da onda forte, a luz extrema
a embriaguez dos astros, a viagem sem volta
para dentro da noite
preciso da música dos anjos negros, as trombetas
a água suja, os bares e os prostíbulos
preciso desta ferida que grita nas cidades grandes
preciso do cigarro que intoxica o bairro
a palavra antes da palavra
uma coisa como esta: o enigma das árvores
escuras, as buzinas perto dos semáforos
a sede por algo que ainda não existe – impensável
como o que não tem nome e o que ainda
espera ser reconhecido para ter corpo
preciso da cerveja a voar entre as minhas veias
o cheiro forte da escuridão, as pedras
o fogo que rema à procura de casa
preciso do aço, a alquimia autêntica da angústia
preciso do sono invulgar, a asa,
a imaginação suprema, o combustível da morte.
tudo o que a memória tem é o que a vida foi tirando, uma
atrás da outra, como se apenas a ela o mistério pertencesse.
agora não há nem o horizonte. não ficou nada além de
um trauma. uma cicatriz para pintar o chão com lágrimas.
nem o espelho consegue trazer de volta o carvão aceso.
o fogo não conhece o sagrado. consome o poema.
não há expressão que sobreviva ao sopro de uma faca.
Texto: António Cabrita



